Enquanto confiança do empresário retrai por conta das pressões do mercados externo, consumidor ainda surfa no otimismo do primeiro trimestre, de acordo com a CNC
Redação DC
A Intenção de Consumo das Famílias (ICF), apurada pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), avançou 1,2% em abril de 2026, atingindo o patamar de 104,5 pontos. O resultado marca o sexto mês seguido de alta do indicador, consolidando um processo de retomada da disposição para a compra de bens duráveis e pela melhora da percepção da renda.
O principal motor do crescimento em abril foi o componente Momento para Compra de Duráveis, que saltou 2,5% na comparação mensal e expressivos 18,8% em relação a abril de 2025. Embora o índice para este setor ainda se encontre em nível pessimista (74,0 pontos), a trajetória é de recuperação.
Essa melhora é sustentada por uma dinâmica de preços favorável: mo mês de março, itens como eletrodomésticos (-0,15%) e veículos (-0,05%) registraram queda dos preços. No acumulado de 12 meses, a deflação em eletrodomésticos chega a 7,19%, contrastando com a inflação geral de 4,14% no período. Além disso, a valorização do câmbio tem reduzido os custos de bens importados ou com componentes globais.
“Para que esse otimismo seja duradouro, é necessário mantermos o compromisso com o equilíbrio fiscal e a segurança jurídica, permitindo uma flexibilização do crédito que impulsione o setor terciário. Esperamos que o Desenrola seja a primeira das medidas por parte dos agentes públicos para devolver poder de compra ao consumidor brasileiro “, afirma o presidente do sistema CNC-Sesc-Senac, José Roberto Tadros.
Famílias de menor renda mais confiantes
A pesquisa aponta que todos os sete componentes da ICF apresentaram alta em abril. O Renda Atual cresceu 1,3% no mês, com alta anual de 1,8%. No campo do emprego, Perspectiva Profissional avançou 2% frente a março, sinalizando otimismo futuro, apesar de o indicador ainda apresentar queda de 5,4% na comparação anual.
O Emprego Atual avançou 0,8% no mês, mantendo-se estável em relação ao ano passado (-0,3%). Segundo a análise técnica, embora o mercado de trabalho siga em patamar favorável, há sinais de acomodação na margem, o que justifica a cautela das famílias quanto à evolução futura do emprego.
O dinamismo do consumo em abril foi mais acentuado entre as famílias de menor poder aquisitivo. Para o grupo com renda de até 10 salários mínimos, a ICF cresceu 1,3% no mês e 3,7% no ano. Já para as famílias com renda superior a 10 salários, a alta mensal foi de 1,2%, com variação anual de 1,3%.
A economista da CNC Catarina Carneiro pondera sobre essa peculiaridade entre as camadas socioeconômicas: “O fôlego extra para as famílias de menor renda é explicado pelo diferencial inflacionário: o INPC, que mede o consumo de 1 a 5 salários mínimos, acumulou alta de 3,77% em 12 meses até março, ficando abaixo do IPCA geral para os outros públicos”.
Mas, apesar da sequência de altas, a CNC destaca que o nível de consumo atual (91,6 pontos) permanece abaixo da zona de satisfação de 100 pontos. Isso reflete um ambiente econômico ainda restritivo, onde as taxas de juros elevadas continuam a limitar decisões de consumo mais imediatas, mesmo com o mercado de trabalho resiliente e a renda em alta.
Confiança do empresário
O Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) apurado pela CNC registrou queda de 1% em abril na comparação com março após o ajuste sazonal. O indicador, que atingiu 105,6 pontos, interrompe uma trajetória recente de recuperação e reflete um ambiente de maior cautela no setor varejista nacional.
O recuo foi impulsionado principalmente pela deterioração das expectativas para os próximos meses, que caíram 2,3%. Segundo a análise da CNC, o otimismo do empresariado foi impactado por fatores geopolíticos e domésticos. As tensões entre EUA e Irã elevaram o preço internacional do petróleo, pressionando os custos de combustíveis e gerando incertezas sobre a inflação e o ritmo da política monetária.
José Roberto Tadros afirma que, frente às dificuldades do momento, o comércio brasileiro tem demonstrado “resiliência notável”, sustentada pela força do mercado de trabalho e pela recuperação da renda real. “Contudo, o momento exige cautela e serenidade. O aumento da incerteza externa e as pressões inflacionárias globais demandam um ambiente interno de previsibilidade e estabilidade”, destaca.
A maior insegurança quanto ao cenário econômico futuro (-3,1%) refletiu diretamente na intenção de investimentos, que recuou 0,9% no mês. O destaque negativo foi a disposição para contratar funcionários, com queda de 1,8%.
“Decisões que envolvem custos rígidos, como a ampliação do quadro de pessoal, tendem a ser postergadas em momentos de incerteza”, destaca a economista Catarina Carneiro. Segundo ela, além do cenário externo, o contexto de ano eleitoral contribui para uma postura mais defensiva dos tomadores de decisão.
Por outro lado, a avaliação sobre as Condições Atuais do Comércio avançou 1,1% em abril. Esse desempenho positivo no curto prazo é sustentado pela resiliência da renda real das famílias, beneficiada pelo dinamismo do mercado de trabalho e pela desaceleração inflacionária de meses anteriores.
Destaques por segmentos
(Fonte: Diário do Comércio)