Perspectivas e oportunidades para empresas comerciais importadoras e exportadoras
Maurício Manfré
O recente avanço do acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia, com sua aprovação em janeiro de 2026, marca um divisor de águas para o comércio exterior brasileiro. Este tratado, fruto de mais de duas décadas de negociações, estabelece a maior zona de livre comércio do mundo, abrangendo um mercado de mais de 720 milhões de consumidores e um PIB combinado superior a US$ 22 trilhões. Para as empresas comerciais importadoras e exportadoras (tradings), este cenário não apenas redefine as regras do jogo, mas também amplifica o papel estratégico dessas organizações na facilitação e otimização dos fluxos comerciais bilaterais.
O CECIEx, ciente da relevância deste momento, apresenta esta análise com o objetivo de orientar seus associados e o mercado em geral sobre as principais oportunidades e desafios que se materializam com a implementação do acordo. Nossa perspectiva foca na capacidade das tradings de atuar como catalisadores, mitigando riscos e maximizando os benefícios para a indústria e o agronegócio brasileiros, tanto na exportação quanto na importação.
Oportunidades de Exportação: Abertura de Mercados e Agregação de Valor
O acordo Mercosul-UE promete uma significativa redução e eliminação de tarifas para uma vasta gama de produtos brasileiros, impulsionando a competitividade e o acesso a um mercado consumidor sofisticado e de alto poder aquisitivo. A expectativa é de um aumento substancial nas exportações, com estimativas da ApexBrasil apontando para ganhos adicionais de R$ 7 bilhões e do Ipea projetando um crescimento de 2% na produção agrícola, equivalente a US$ 11 bilhões anuais.
O setor agropecuário brasileiro é, sem dúvida, o maior beneficiário do acordo. A União Europeia já é um destino consolidado para nossos produtos agrícolas, e o tratado fortalecerá essa relação. As tradings terão um papel crucial na gestão das cotas e na garantia da conformidade com os rigorosos padrões europeus.
1.1 Carnes (Bovina, Frango e Suína)
As exportações de carne bovina para a UE cresceram 83,2% nos 11 primeiros meses de 2025, atingindo US$ 820,15 milhões. Com a redução de tarifas, a carne brasileira, especialmente cortes premium, ganhará ainda mais competitividade. As cotas de importação (99 mil toneladas/ano para o Mercosul com tarifa inicial de 7,5%) e as salvaguardas exigirão das tradings uma gestão eficiente e estratégica para otimizar o uso desses volumes.
1.2 Café
A UE é o principal destino do café brasileiro, com exportações de US$ 6,43 bilhões entre janeiro e novembro de 2025. A eliminação de tarifas para o café verde e a maior competitividade para o café solúvel (que hoje compete com o Vietnã, já com tarifa zero) abrem caminho para produtos de maior valor agregado. As tradings podem auxiliar na certificação de sustentabilidade e rastreabilidade, requisitos cada vez mais valorizados pelos consumidores europeus.
1.3 Complexo Soja (Grão, Farelo e Óleo)
Com exportações de soja e derivados somando aproximadamente US$ 7 bilhões em 2024, a UE é o terceiro maior destino. A redução de tarifas estimulará a demanda por farelo para alimentação animal e óleo para diversas aplicações. O desafio da conformidade ambiental (EUDR – Lei Antidesmatamento) e da rastreabilidade será um diferencial para as tradings que conseguirem garantir a origem sustentável do produto.
1.4 Frutas Frescas e Suco de Laranja
A UE já é o maior destino das frutas brasileiras, e o acordo prevê a eliminação imediata da tarifa de 14% para uvas, além de reduções para manga e mamão. Para o suco de laranja, do qual o Brasil é o maior exportador global, a redução de tarifas pode ajudar a recuperar volumes e impulsionar a exportação de produtos concentrados. A gestão da logística refrigerada e a conformidade fitossanitária são áreas onde as tradings podem agregar valor significativo.
1.5 Celulose e Etanol
A celulose, com US$ 1,98 bilhão exportados para a UE em 2024, terá sua competitividade ampliada pela redução de tarifas. O etanol, alinhado aos objetivos climáticos europeus, também se beneficiará da redução tarifária, embora com cotas e salvaguardas. As tradings podem explorar a crescente demanda europeia por produtos sustentáveis e biocombustíveis, garantindo as certificações necessárias.
Além do agronegócio, setores industriais também verão oportunidades significativas, especialmente aqueles que podem se integrar às cadeias de valor europeias.
2.1 Calçados
Com tarifas atuais entre 3,5% e 17%, a eliminação gradual em até 4 anos para calçados brasileiros representa uma grande oportunidade. As tradings podem auxiliar na diferenciação de produtos, no branding e na busca por parcerias com varejistas europeus, focando em calçados de couro de qualidade premium.
2.2 Minerais e Metais
A demanda europeia por minerais como cobre e minério de ferro, essenciais para a transição energética, crescerá com a redução de tarifas. As tradings podem atuar na conformidade ambiental e na conexão com processadores europeus.
2.3 Produtos Químicos e Derivados
A indústria química brasileira, já integrada globalmente, terá tarifas reduzidas para seus produtos, facilitando a entrada como insumos em cadeias de fabricação europeias. A conformidade com padrões de segurança química e a inovação em produtos serão cruciais.
Oportunidades de Importação: Redução de Custos e Acesso à Tecnologia
O acordo também trará benefícios substanciais para as importações brasileiras, com a redução e eliminação de tarifas sobre produtos europeus. Isso resultará em menor custo para o consumidor final e para a indústria, além de facilitar o acesso a tecnologias e inovações.
A União Europeia é uma das principais fontes de fármacos para o Brasil, com mais de US$ 7 bilhões importados em 2025. A redução tarifária em medicamentos, vacinas e insumos químicos barateará esses produtos, beneficiando o sistema de saúde e a indústria nacional. As tradings podem otimizar o sourcing, garantindo o acesso a produtos de alta qualidade e tecnologia.
A tarifa zero imediata para motores, geradores e equipamentos elétricos europeus representa uma oportunidade para a modernização do parque industrial brasileiro. A redução de custos de capital (CAPEX) permitirá que as empresas brasileiras invistam em tecnologias de ponta, como as da Indústria 4.0, aumentando sua produtividade e competitividade. As tradings serão fundamentais na identificação e importação desses equipamentos.
Com US$ 5,07 bilhões em importações de automóveis e autopeças em 2025, a redução tarifária progressiva e o acesso a tecnologias europeias de propulsão limpa (veículos elétricos e híbridos) impulsionarão a integração do Brasil em cadeias globais de valor e a oferta de modelos premium no mercado interno. As tradings podem facilitar a entrada desses produtos, gerindo a complexidade das cotas e cronogramas de desgravação.
Produtos como vinhos, espumantes, azeites, chocolates e queijos finos europeus terão suas tarifas reduzidas gradualmente, tornando-os mais acessíveis ao consumidor brasileiro. Isso estimulará o mercado interno de consumo e o varejo especializado. As tradings podem explorar a crescente demanda por produtos de alto valor agregado, diversificando o portfólio de importação.
O Papel Estratégico das Empresas Comerciais (Tradings)
Neste novo cenário, o papel das empresas comerciais importadoras e exportadoras torna-se ainda mais vital. Elas atuarão como elos estratégicos, conectando produtores brasileiros a mercados europeus e vice-versa, e oferecendo expertise em áreas críticas:
Conclusão
O acordo Mercosul-União Europeia representa uma oportunidade histórica para o Brasil consolidar sua posição como um player global no comércio exterior. Para o CECIEx e suas empresas associadas, este é um momento de reafirmar o papel central das tradings como facilitadoras, estrategistas e impulsionadoras do desenvolvimento econômico. Ao abraçar os desafios da conformidade e da competitividade, e ao explorar as vastas oportunidades de exportação e importação, as empresas comerciais brasileiras estarão na vanguarda da construção de um futuro comercial mais próspero e integrado.
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Fonte: Diário do Comércio